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Wagyu de laboratório: Carne mais cara do mundo impressa em 3D é carne?

Wagyu de laboratório: Carne mais cara do mundo impressa em 3D é carne?
Wagyu de laboratório: Carne mais cara do mundo impressa em 3D é carne?

A notícia sobre cientistas japoneses que teriam recriado em laboratório a carne mais cara do mundo, que vem do gado Wagyu, alvoroçou as redes e alimentou reportagens no Brasil e no Mundo. Isso porque foi publicado um artigo científico na revista especializada “Nature Communications” detalhando a experiência.

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Algumas matérias falam que a novidade é a alternativa de “comida mais saudável e sem culpa”. Outras dizem que o seria a solução de problemas ambientais. Inacreditável como, mesmo sem dados científicos que comprovem nada disso, os textos insistem em incentivar o bife sintético.

Para trazer mais informações relevantes ao debate, que me parece bem polêmico, convidei novamente Sérgio Pflanzer, professor Doutor-MS3 na Faculdade de Engenharia de Alimentos da Unicamp. Na semana passada, publicamos juntos, na IstoÉ, uma reflexão sobre “A salsicha da Volkswagen e a controvérsia da carne como grande vilã dos gases do efeito estufa”.

Então, agora o assunto é o novo produto, chamado de “carne”. Será que ele realmente se assemelha com uma carne de verdade?  “Eu acho que não”, opina Sérgio.

O especialista explica melhor ao comparar a novidade com outra técnica já conhecida por nós. “Multiplicar células animais em laboratório não é uma coisa tão nova no mundo. Essa tecnologia tem seu uso muito conhecido na medicina, onde tecidos ou parte de órgãos podem ser recuperados ou sintetizados para serem transplantados em pessoas que precisam. Mas, mesmo com toda tecnologia conhecida e investimentos neste setor, a medicina humana ainda tem dificuldade para tratar pessoas que precisam de transplantes”, menciona.

Já no âmbito da alimentação, a tecnologia de cultivo de células em laboratório vem sendo proposta como revolucionária, pois permitiria a produção de milhões de toneladas de “carne”, de forma mais sustentável e barata. “Entretanto, pesquisas recentes apontam que isso pode não ser tão simples, pois a demanda por energia e insumos específicos, mesmo em larga escala, poderia deixar a produção menos sustentável e o produto final muito caro, sendo essa a realidade ainda nos dias de hoje“, aponta.

Ainda de acordo com Sérgio, o artigo publicado demonstra a possibilidade de utilizar uma nova tecnologia, conhecida como bioimpressão, para arquitetar um pedacinho de carne de laboratório, medindo 0,5 x 1,0 centímetros, que foi fabricado apenas com 42 fibras musculares, 28 fibras de gordura e 2 vasos sanguíneos. “É algo bastante inovador para ciência, mas não parece apetitoso”, pontua. 

Na imagem abaixo vemos o resultado final do que foi possível construir.

Mas o que os pesquisadores fizeram e usaram para chegar neste resultado e ter esse pedacinho de “carne”?

“Explicando de maneira muito simplificada, foi coletada uma pequena amostra do músculo da bochecha de um bovino (neste caso, de Wagyu, mas poderia ter sido de qualquer outra raça ou animal). Na sequência, foram retiradas algumas células que têm a capacidade de se reproduzir e se transformar (diferenciar) em outros tecidos. Para crescer e se multiplicar, os cientistas colocaram as células em meios de cultura, contendo como ingredientes principais soro fetal bovino e soro de cavalos (colhido de animais), hormônios e antibióticos, substâncias que seriam vistas como pouco naturais para o consumo por uma grande parcela da população”, explica.

“Após terem se multiplicado por quase duas semanas, essas células foram colocadas em uma bioimpressora, que funcionaria de forma semelhante às impressoras 3D que temos no mercado. As células foram então colocadas (impressas) em uma caixa contendo fibras de gelatina, que serviriam de estrutura física, como os pilares/colunas de uma construção”, continua.

“Já na fase final, após todas as camadas e tipos de células terem sido organizadas nesta caixa, foi adicionado mais meio de cultura (com os ingredientes já mencionados), e, então, as células ficaram guardadas por mais duas semanas. Assim, após um mês, estava criada a ‘nova carne'”, completa.

Mesmo assim, ficam dúvidas: 

  • Será que é esse o tipo de alimento que queremos para nosso futuro?
  • Será que precisamos disso?
  • Será que isso vai ser mais barato?
  • Será que isso vai beneficiar as pessoas do campo?
  • Será que isso vai ser gostoso?
  • Será que isso vai ser saudável e nutritivo?

Acredito que a ciência ainda precisa e vai avançar muito nesse segmento. Não porque precisamos, mas porque existe uma pressão recente, e muito forte, por parte de algumas pessoas e entidades, para mim injustificada, de que a criação de animais para alimentação humana precisa acabar”, lamenta Sérgio.

“Já buscamos, de forma sustentável (ambiental, social e econômica), aproveitar o espaço para toda e qualquer forma de produção de alimentos, seja no campo, na indústria ou no laboratório. Se, por um lado, os órgãos reguladores e fiscalizadores ainda precisam garantir a segurança desses novos alimentos (ainda desconhecida em muitos países), por outro, os consumidores devem estar atentos às promessas atribuídas e decidir se querem ou não consumir esses produtos”, finaliza.

(*) Da redação Menu

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