Embora a presença feminina esteja historicamente ligada a tradições culinárias e ao preparo de refeições em casa, quando se trata da cozinha profissional, os papéis parecem se inverter. Em um cenário controverso, em que dados da Pesquisa Nacional por Amostra Domiciliar (Pnad) do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), mostram que 96% das mulheres que moram com parceiros realizam atividades como cozinhar e lavar louças, somente 7% dos restaurantes mais renomados do país são comandados por elas, aponta pesquisa de 2022 do site especializado Chef’s Pencil”.

Frente à predominância masculina em cargos de comando nas cozinhas, não é incomum que mulheres chefs relatem já terem tido de reafirmar a própria competência. Em entrevista à Menu, a chef Isa Honda, sócia da Joya Boulangerie, afirma que o preconceito com mulheres na cozinha pode se manifestar de maneira latente: “Muitas vezes isso não vem de forma explícita, mas aparece em pequenos gestos, em olhares de dúvida ou na surpresa quando percebem que sou eu quem lidera a produção e as decisões”. 

No início da carreira, Mari Adania passou por uma situação semelhante. Formada em Gastronomia em 2012, começou a estagiar aos 19 anos em uma equipe composta principalmente por homens mais velhos. “Quando me viam, não acreditavam que chegaria até o fim do estágio, parte por ser mulher e parte por ser jovem”, conta a chef, hoje à frente do Manduque Massas e da Feliciana Pães

‘Divisão de gêneros’ na cozinha

Criada por Auguste Escoffier no século XIX, a estrutura clássica da cozinha profissional, inspirada no rigor militar, historicamente concentrou mulheres em setores que exigiam mais delicadeza e precisão, como a pâtisserie. Enquanto isso, atividades como o comando da brigada passaram a ficar a cargo de homens.

À reportagem, Ana Cremonezi, chef do Fahrenheit, relembra como desafiou papéis de gênero pré-estabelecidos desde o início da carreira: “Para mim, ocupar qualquer posição que não fosse o garde manger [organização para pratos frios] ou a confeitaria já significava começar provando que eu conseguia fazer exatamente o mesmo que os homens. Carregar caixas, erguer panelões de inox, assumir a parrilla, trabalhar no Josper [forno a carvão] ou chefiar uma cozinha quente com uma brigada majoritariamente masculina”, conta. 

O modelo que favorece a presença de homens em cargos de chefia, entretanto, ainda é perpetuado — a exemplo de premiações internacionais com categorias específicas para mulheres. “Premiações precisam ampliar o olhar e reconhecer talentos sem criar categorias que segreguem mulheres como exceção”, sugere Isa. 

E Mari concorda: “Chef é chef. O trabalho é o mesmo, as dificuldades são as mesmas. Então, por que diferenciar um prêmio de chef-mulher ou chef-homem? Se o serviço é o mesmo, a dificuldade é a mesma e a cobrança também”. 

“A cozinha profissional ainda carrega uma cultura historicamente masculina, especialmente quando falamos de cargos de comando e gestão. O preconceito costuma ser mais evidente justamente nesses espaços de liderança, quando a mulher deixa de ser vista como parte da equipe e passa a ocupar o papel de quem decide, negocia e conduz o negócio”, afirma Isa Honda.

‘Firmeza não precisa vir acompanhada de agressividade’

Experiências vividas ao longo da carreira também influenciaram a forma como cada chef conduz suas equipes. Ana e Mari entram em consenso ao afirmarem que desafios relacionados a gênero despertaram instintos de autopreservação — uma “casca”, como descreve Cremonezi —, mas dizem ter encontrado o equilíbrio profissional. 

“Essas experiências foram duras, mas objetivas, e criaram uma casca — não de endurecimento, mas de posicionamento”, diz a chef do Fahrenheit. E Adania observa: “Acredito que me tornei uma pessoa mais dura, no começo até mais ríspida, pois não queria deixar dúvidas de que tinha força para dar conta do trabalho. Também era uma forma de ser ouvida. Hoje em dia, encontrei um equilíbrio”.

Chef Mari Adania (Foto: Elvis Fernandes)
Chef Mari Adania (Foto: Elvis Fernandes)

Com passagem pela padaria e confeitaria do Tuju, restaurante premiado com duas Estrelas Michelin e uma Estrela Verde Michelin em São Paulo, Isa Honda acredita que a liderança na cozinha esteja ligada à construção de um ambiente de trabalho baseado em respeito e organização. 

“Firmeza não precisa vir acompanhada de agressividade. Prefiro formar um time comprometido porque acredita no que faz, e não porque tem medo”, pontua.

Mulheres no setor gastonômico

Um levantamento da Abrasel (Associação Brasileira de Bares e Restaurantes) mostra que 54% da mão de obra formal de bares e restaurantes é composto pelo gênero feminino, totalizando 1,6 milhão de mulheres — estatística que sobe para 56% ao considerar o setor informal. Vale destacar, no entanto, que o número representa a força de trabalho também em cargos operacionais na linha de frente.

Quando o assunto são os cargos de liderança, segundo a Abrasel, 52,7% dos negócios do setor de alimentação fora do lar (AFL) têm mulheres como sócias. Dentre as Microempresas Individuais (MEIs), o número também é expressivo, com 52,6% dos estabelecimentos liderados por mulheres. 

“No início, quem assumia as cozinhas eram homens, normalmente mais velhos e muitas vezes machistas. Logo, as mulheres não tinham vez para ganhar cargos de liderança. A partir do momento que a sociedade tem mudado, a cabeça dos homens também muda. Agora temos mais confiança, somos mais independentes e estamos mais preparadas para assumir, por ter uma confiança e uma rede de apoio”, declara Mari Adania.

Caminhos para mais igualdade

Apesar das dificuldades, as três chefs se mostram otimistas em relação à presença feminina nas cozinhas e ao valor da representatividade para consumidores. 

“Cada vez mais mulheres estão à frente de estabelecimentos assumindo não apenas a criação dos cardápios, mas também a gestão e a estratégia do negócio. Ainda existe desigualdade, principalmente quando falamos de grandes grupos e da chamada alta gastronomia tradicional, mas há um movimento consistente de transformação”, observa Isa. 

 

Apesar disso, como destaca Adania, o caminho não é fácil: além das dificuldades relacionadas ao machismo, o setor exige dedicação: “Quando todos estão descansando ou festejando, nós estamos trabalhando. Entrar ciente disso já te prepara para o que está por vir”.

Um conselho para as gerações futuras? “Uma mulher precisará se provar muitas vezes, mas uma mulher é plenamente capaz de se provar muitas vezes. Continuem sonhando e façam bem feito”, finaliza Ana.