O chef Ivan Santinho anunciou nesta terça-feira, 25, a interrupção das atividades do La Cura Quintal, na Vila Madalena, em meio a imbróglio com a incorporadora Toca55. Em vídeo publicado no Instagram, Santinho relata que a construtora obteve uma liminar judicial que permitiu a demolição e reconstrução do muro entre o restaurante e o empreendimento Ourá – Alto de Pinheiros, mas que não recebeu cronograma de execução da obra ou projeto formal. Segundo o chef, a demolição do muro começou na segunda-feira, 24, sem aviso prévio.

“A gente pediu um cronograma para entender como ia ser feita essa obra, como seguiriam os prazos para entendermos e avisarmos os clientes. Não tivemos resposta nenhuma, mas segunda-feira, inesperadamente, eles chegaram e começaram a demolir com uma picareta na mão e a liminar na outra”, relatou Santinho, em vídeo.

Na filmagem, é possível ver o momento em que, enquanto um funcionário da obra usa uma picareta para quebrar os tijolos, colaboradores do La Cura retiram, às pressas, equipamentos de luz e som fixados à estrutura prestes a ser demolida. Durante o primeiro dia, a demolição não contou com medidas de segurança como tapumes ou contenções, “apesar de isso ter sido expressamente determinado pela decisão judicial que autorizou a obra” — como detalha o restaurante, em nota à imprensa.

Imagens posteriores mostram o salão no dia seguinte, com móveis já cobertos por sacos plásticos e o piso parcialmente revestido por chapas de madeirite.

Story do chef Ivan Santinho (Reprodução/Instagram)

Na nota, o La Cura ainda afirmou que, além de causar a interrupção parcial das atividades, a execução irregular da demolição fez com que pedras, entulhos e resíduos caíssem diretamente dentro das áreas de circulação do restaurante, colocando em risco a integridade física de clientes e colaboradores. A casa esclarece que não se opõe à obra, mas “exige que ela seja realizada conforme determina a decisão judicial e a técnica profissional adequada”.

O restaurante segue funcionando apenas no delivery, pelo La Cura Rotisserie.

O que diz a incorporadora

Em nota à reportagem, a Toca55 afirmou que tem “propriedade integral”, reconhecida em cartório, do muro demolido; acrescentando ainda que o custo da construção de um novo muro seria responsabilidade do restaurante. A incorporadora não se manifestou acerca da ausência de apresentação de um cronograma de obras.

Leia o pronunciamento na íntegra:

“A Toca55, incorporadora responsável pelo empreendimento Ourá, em parceria com a construtora Linka, vem a público esclarecer com total transparência e respeito ao bairro e à comunidade, os fatos relacionados à remoção do muro que divide o empreendimento Ourá e o imóvel onde funciona o restaurante La Cura, na rua Ourânia, Alto de Pinheiros em São Paulo. O muro em questão é integralmente de propriedade da Toca55 e fazia parte da antiga construção existente em um dos lotes adquiridos, por isso, está completamente inserido dentro do perímetro do terreno unificado do Ourá. O proprietário do imóvel vizinho, onde funciona o La Cura, assinou em cartório os documentos da retificação de matrícula, reconhecendo esse fato. Durante o processo de aprovação municipal, laudos técnicos e vistorias apontaram que a estrutura do muro apresentava fragilidade, tornando sua remoção obrigatória para garantir a segurança da obra, dos vizinhos e da equipe técnica.

É fundamental ressaltar que antes da demolição do muro e qualquer medida judicial, a Toca55 se ofereceu para construir e arcar com o custo total do novo muro, que por lei seria responsabilidade do proprietário do imóvel vizinho. No entanto, após meses de negociação, o restaurante solicitou uma indenização, além da construção do muro, que em avaliação jurídica por parte da Toca55, era abusiva. Devido a essa exigência e às sucessivas alterações de combinados por parte do ‘La Cura’, o início das obras Ouruá sofreu atraso, gerando impacto também aos compradores dos apartamentos.

A incorporadora reafirma que seus projetos seguem rigorosamente toda a legislação vigente e o Plano Diretor da cidade de São Paulo, atuando sempre com as melhores práticas de engenharia e urbanismo, com rigor técnico e respeito aos vizinhos e ao entorno. A empresa tem como premissa colocar as pessoas no centro de sua atuação e a arquitetura orienta todas as decisões para gerar impacto positivo na cidade. Esse compromisso se sustenta em uma governança sólida, com sistemas próprios, relatórios detalhados e análises rigorosas, que garantem eficiência, precisão e transparência em todas as etapas do negócio.”

À reportagem, a Secretaria Municipal de Urbanismo e Licenciamento de São Paulo (SMUL) informou que o empreendimento mencionado “possui alvarás de demolição e de execução de edificação nova regularmente emitidos, em conformidade com a legislação urbanística vigente”. Segundo o órgão, a Secretaria Municipal das Subprefeituras realizou vistoria no endereço e confirmou que o alvará de demolição está regular. A nota encerra afirmando que o serviço “já foi concluído” e que “não foram identificados resíduos ou acúmulo de sujeira em área pública”.

Chef nega ‘meses de negociação’

Ivan Santinho afirma que jamais houve “meses de negociação”, como diz a incorporadora. O restaurante diz ter tentado dialogar por três semanas, entre 17 de setembro e 8 de outubro, mas as conversas não avançaram.  “O valor verbalmente cogitado pela incorporadora era irrisório, incapaz de cobrir sequer um terço da folha de pagamento, o que tornava impossível fechar o espaço por período indeterminado sem gerar grave impacto financeiro e social”, diz.

O chef também reitera o fato de que não recebeu informações como cronograma da obra ou projeto técnico, apesar de solicitações insistentes. A necessidade de reconstrução do muro, que exigiria avanço dentro do terreno do restaurante, só foi formalmente comunicada quando a incorporadora entrou com ação judicial, posteriormente reunida à ação movida pelo próprio La Cura para proteger sua operação.

Segundo Santinho, além da falha de comunicação, a demolição começou “de forma abrupta”, sem tapumes, contenções ou técnica de engenharia — contrariando a decisão judicial que condicionava a obra a medidas de segurança.

Em entrevista à Menu, o dono da casa relata prejuízos severos: “Do lado financeiro, estamos na reta final do ano e novembro e dezembro são meses decisivos para o setor gastronômico. É nesse período que conseguimos equilibrar os meses fracos de janeiro e fevereiro e garantir salários, 13º, manutenção das 30 famílias que dependem do restaurante, entre pagar as contas, aluguel e fornecedores. A interrupção da operação e o cancelamento de eventos já representam prejuízos significativos. Em meio a todo esse caos, estamos levantando números finais, mas os danos são relevantes e contínuos”.